MATHIAS GRAMOSO + NINA BARRET-MÉMY

 PRAÇA e jardim DONA MARIA II 10-20 NOV. 2017

INCIDENTES DE FUNDO – INCIDENTES DE FORMA
Mathias Gramoso e Nina Barret-Mémy
em colaboração com João Terras

Escultura/Instalação
Não será intenção submergir a força e identidade destas peças num corpo de palavras que as possa encerrar, porém, palavras parecem fazer sentido neste momento. Assim, aqui, o texto pretende desprender-se da sua função descritiva e assumir-me como algo isolado e em potência. Com um fio condutor em possível activação. Para pensarmos este aqui e este agora, algo leva a que seja – de forma intuitiva – recordado um pequeno excerto de Arnold Hauser, que colocado neste termo, de forma deslocada e descontextualizada parece sintetizar algumas linhas do pensamento que circunda a realidade que observamos.
Em “A Arte e a Sociedade” ao terminar a sua reflexão, Hauser escreve “A vida surge nas formas da arte, como dizia Proust, não só mais bela, significativa e conciliadora, como também só é um todo significativo através da recordação, da visão artística e da imagem estética. Uma tal opinião sobre a arte visa um público que já só vê na realidade o mero substrato de vivências estéticas. (…) Sob carga de uma tal ficção, a arte tem de sucumbir e o passo seguinte só pode ser a sua recusa mais ou menos extensa.” No que cabe a este(s) trabalho(s) com os quais passamos a relacionar, termos como forma, recordação e imagem, parecem ecoar em todos os fragmentos expostos ao longo do espaço. Não é que se trate de apenas uma fracção – tanto quanto de uma elite – do mundo, todos nós, mesmo aqueles mais esquecidos e desatentos, podemos ver “na realidade o mero substrato de vivências estéticas”. A suavidade e esvaziamento destes trabalhos colocam-nos, mesmo que não o queiramos fazer, num estado conciliador à procura de um “todo significativo” que só acontece “através da recordação, da visão artística e da imagem estética”.
[pausa]
“…algo como contra-sítos (…) espécie de lugares que estão fora de todos os lugares, apesar de se poder obviamente apontar a sua posição geográfica na realidade. (…) Chamá-los-ei, por contraste às utopias, Heterotopias.”
Este excerto é retirado do texto do filosofo francês Michel Foucault “Des espaces autres” (De outros espaços) – publicado em 1984 resultante da conferência proferida no Circulo de estudos arquiteturais em 1967 – Foi isso que senti (-mos) ao entrar no depósito, um sítio em que me localizei entre os “nãolugares” que Marc Augé um dia nos falou e um espaço heterotópico que Foucault sugere em reflectir. É assim que vamos olhar para ele. O Depósito1 como lugar/não lugar, como marginal/desviante, como espaço onde colocar o “tempo em pausa” ou melhor, onde deixamos as coisas cuja função desapareceu por momentos mas das quais não sabemos onde colocar ou jamais conseguiremos desfazer por completo, para sempre. Uma espécie de sótão ou cave – a céu aberto – onde empilhamos o tempo, o nosso tempo – aquela factura do café bebido em França (da única vez que lá fui) que me custa a deixar desaparecer – É o nosso infortúnio relacionamento com o desapego. Como se o medo da morte ecoasse sempre.

BINNAR 2017
No depósito, temos as peças que param, as que se deixam, as que repousam e as que voltam a sair. De forma esquemática reúnem no mínimo dois pontos Heterótopicos. Uma heterotopia de desvio e uma heterotopia acumulativa do tempo. Um sitio que espelha os nossos medos e consola as nossas falhas.
É curiosamente no Depósito – pelo menos neste – que encontramos o Canil. Lugar este que em suma resume todas as características do depósito – como espaço isolado – todos os medos, anseios e a capacidade de “não-resposta” do homem. A única diferença é o pulsar da vida, é o desvio entre o inanimado e o animado. O Canil é a prisão sem obrigatoriedade, sem culpa para o réu. É o lugar acumulativo das partes, das falhas, um espaço em “stand-by”, que nos ajuda a esquecer – por momentos – aquilo que não queremos pensar/lembrar.
Aos dois intervenientes, o Mathias e a Nina, foi-lhes proposto entrar nesta heterotopia, e usufruir dela. Em certa medida foi uma acção de desvio na norma do depósito. Todos aqueles objectos estão carregados de figuração, de imagem, de texto, de forma, no fundo de memória. Em quase todos os fragmentos/parcelas agora expostos aqui, reconhecemos uma parte. Em síntese, numa espécie de “olhar dejá-vu”, resumimos a “forma” à “função”, a “função” à “coisa”. Entramos num jogo onde a nossa fruição procura a justificativa de que aquilo nos lembra algo e de que aquilo serve para tal.
Só seremos livres quando deixarmos esse jogo. A eles foi-lhes entregue aquilo a que poderíamos chamar de “Arquivo desviante não normativo”. Foi-lhes entregue o desvio e o desviante. O que ninguém por enquanto quer. O que foi e o que “pode vir” a ser. Numa espécie de “activação do nada do arquivo” é-nos entregue a beleza das formas, a crueza das cores e por fim a impureza das memórias. Como partes isoladas ou composições escultóricas, somos colocados em pausa. São algo – formas e composições -“por vir”, são incidentes de fundo, incidentes de forma.
[pausa]
Precisamos destes espaços para viver, para nos sossegarmos. Precisamos mesmo destes lugares, precisamos para fortalecer a nossa ilusão, a nossa ficção. Ao mesmo tempo encontramos neles espaço para reflectir e sonhar. “…O navio é a heterotopia por excelência. Em civilizações sem barcos, esgotam-se os sonhos, e a aventura é substituída pela espionagem, os piratas pelas polícias.” M. Foucault

1 depósito municipal – Resíduos, canil e manutenção de serviços municipal

Ficha técnica
Várias peças
Plástico, Ferro, Chapas de Metal, Cerâmica e Pedra (granito)
Cimento e parafusos
Tinta plástica

Texto: João Terras

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